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..:: Domingo, Julho 23, 2006

Provisóriamente sem nome.

PARTE 1

Ela chora na cama. E é ali onde ninguém a vê, ninguém a sente, ninguém a toca. Ela chora em mais uma tentativa de lavar a lama espalhada por ele. E molha o lençol, e é violenta com os panos.
Silenciosa, ela vomita as suas mágoas. A cama é sua esfera, é uma extensão do seu corpo, onde sua alma se manifesta e deixa um pouco do seu rastro doloroso, sem que percebam.
Quando sai da sua cama, o seu corpo responde ao mundo como deve ser; há hipocrisia. Respira fundo, já é forte, recorre ao espelho para reconstruir sua fachada de porcelana e volta para a sala de jantar.

Ela:
- Não encontrei as chaves, amor. Tem mesmo certeza de que não estão com você?

O Marido:
- Já encontrei. Volto logo! (ao ouvido ele diz) Eu te amo.

Ela:
- Pra sempre?

Ele:
- (num gesto grande, para todos da sala) Sempre! (e sai)


Aprendera a mentir com o corpo mas, apesar de sua aparente força, os olhos não negavam sua aflição. Olhavam fixamente para um horizonte que atravessava as paredes do seu peito. Antes que pudesse desmoronar, volta a ajeitar a mesa.

Ela:
- Minha filha, você vai trazer ou não os talheres pra mesa?

Por Thiago, às 00:30.

Morda! - mordida(s) até então.
..:: Terça-feira, Julho 04, 2006

ÓRBITA SILENCIOSA

O meu mundo começa e termina em mim
Assim é a rota da minha esfera
Não gira em torno de nada
Porque é ela o centro
Sempre dentro, ninguém toca
O ritmo que crio é estranho
Se repete como num cânone doloroso
Se abro a boca, me sufoca
E volta a girar
E me cortar
A boca, falsa
Sorri

Por Thiago, às 22:51.

Morda! - mordida(s) até então.

EM CASA DE AMÁLIA

O pilar fundamental da obra de Amália Rodrigues era o encontro do fado e da poesia. E era esse encontro que ela promovia em serões em sua casa, com poetas de sua preferência.

Numa dessas noites, um dos poetas convidados de Amália foi o nosso brasileiro Vinicius de Moraes. Graças a microfones postos em vasos de flores, esta noite foi registrada e, posteriormente, editada num álbum que ganhou o nome Amália/Vinícius.

Outro poeta (este, português) presente neste registro é José Carlos Ary dos Santos, autor da poesia que irei postar agora. É certo, o poema não ilustra a presença de Vinicius e de Amália, mas ainda assim é ótimo, divertido. No mais, deixo um linque com outras informações sobre o álbum como letras, textos e trechos de algumas faixas.



O tal linque.



O OBJECTO

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?

E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

José Carlos Ary dos Santos

Por Thiago, às 11:46.

Morda! - mordida(s) até então.