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..:: Sábado, Junho 11, 2005

O CRIME DA SARDINHA

Tinha muita gente em volta dela e a maioria com olhares esbugalhados. Não era pra menos, não é todo dia que se vê alguém bater as botas assim, no meio da rua. Muito menos quando a falecida exibe um traje tão excêntrico quanto aquela fantasia de sardinha.

- Quando ouvi os tiros, me escondi na primeira lojinha que vi pela frente. Só pude ver um carro bege, saindo em disparada!

- Ela tava atravessando a rua. O carro avançou o sinal e parou bem ao lado dela.

- Eu estava bem ali, perto da banca de jornais. Vi quando atiraram na coitada de dentro do carro. Foram 3 tiros, pobrezinha!

- Olha, eu tenho lá minhas dúvidas. Eu nunca confiei muito nessa sardinha, viu!

- Eu também não. Acho que ela estava envolvida no tráfico!

- Será?!? Mas ela trabalhava na peixaria Zé Peixão.

- Pura conveniência! Quem ia desconfiar de uma sardinha?

- É...

- Pois é...

- Que horror!

- É...

O zum-zum-zum só aumentou quando a ambulância se aproximou do local, estacionou e expeliu alguns para-médicos. Apesar dos avisos da população alvoroçada, de que a vítima já tinha feito a passagem, os homenzinhos de uniforme não deram a menor trela.

- Pessoal, vamos dar licença! Precisamos socorrer a vítima.

Não demoraram muito para notar que já não havia mais nada a fazer. Estava mesmo, a estatelada sardinha, mortinha da Silva. A polícia, nesse momento, também já estava por ali levantando algumas informações sobre o caso. Observavam o corpo da vítima e conversavam com alguns dos presentes que disputavam para contar sua versão do bizarro assassinato.
Foi uma longa e inesquecível tarde pra aquela cidadezinha. Os curiosos só arredaram pé dali quando o corpo foi recolhido, encaixotado e levado embora. Quem viu, conta até hoje a história da sardinha que, como tantas outras, acabou enlatada.

Por Thiago, às 19:38.

Morda! - mordida(s) até então.
..:: Segunda-feira, Junho 06, 2005

SEGUNDA-FEIRA

"Depois de quase 9 minutos e meio de atraso, o ônibus apareceu. Abarrotado, como já esperava. Também já sabia que, como em todos os outros dias de chuva, a mira perfeita do motorista acoplaria a porta do veículo a uma enorme e lamacenta poça. Batata!"

Segunda-feira, para muitos, é o dia do mau humor. Por mais que tenha se descansado muito, visto TV, até mesmo dado aquela faxina na casa, a segunda feira sempre chega de repente, acabando com a alegria justo quando a coisa estava ficando boa. E para Simone não era diferente.
Acordava muito cedo, irritada com o despertador que insistia em lembrar que já era hora de dar adeus à cama. Contendo toda sua ira contra aquele aparelhinho infernal, delicadamente o calava. Outros cinco já haviam passado por sua cabeceira e tiveram fins trágicos, normalmente arremessados contra a parede. Até que funcionava, mas o prejuízo era sempre em dobro: um esporro do gerente, pelo atraso e a compra de um novo despertador. Por isso, achou melhor conter seus impulsos matinais.
Tomar banho, se enxugar, vestir o uniforme, pentear os cabelos, tomar café, escovar os dentes, pintar a cara e dirigir-se ao ponto de ônibus. Tudo isso com muita, muita pressa. Assim Simone estava pronta para mais um dia de trabalho e, no ônibus, aproveitava o tempo pra rabiscar alguma coisa em seu diário.

"Hoje eu contei cada minuto das quase 8 horas em que me desdobrei tentando vender roupas e assessórios àquelas madames. Foram 460, já descontados dos meus míseros 20 minutos de almoço. Muito movimento, poucas vendas e meu horário de almoço mutilado. Já deveria ter me acostumado, mas não consegui."

Parecia acreditar que havia alguém a esperando em seu lar, por isso saía sempre apressada da loja. Às vezes corria, a fim de tomar o ônibus mais cedo. Mas quando abria a porta de sua casa encontrava sempre o mesmo: nada. Olhava os cantos, paredes e piso, mas as marcas não eram suas. Um desenho a lápis na parede do corredor insinuava que uma criança havia morado ali, além de indicar que sua casa estava precisando de uma boa pintura. E não eram apenas as paredes que precisavam de reformas, os pisos, o teto, a fachada e, principalmente ela. O vazio do seu habitat não havia invadido seu peito, pelo contrário. Seu interior é que estava refletido ali, e impregnado por todas as partes.
Mas conseguia distrair o oco que se esfregava o tempo todo, em sua cara, lendo seus romances de banca de jornal ou mesmo assistindo a tv. Normalmente se chocava muito com o noticiário, sempre carregado de muitas tragédias e mazelas mil. Como se alguém a escutasse, fazia comentários do tipo "O mundo está mesmo perdido!". Também se emocionava ao ver as cenas da sua novela preferida, se imaginando no lugar da protagonista que, mesmo sofrendo muito, sempre se dava bem no final. E assim ela se arrastava em sua vida que mais parecia uma eterna segunda-feira, até encontrar seu fim que, sonhava, não seria diferente dos que viu nos folhetins.

Por Thiago, às 23:28.

Morda! - mordida(s) até então.